Ir para o conteúdo principal
  1. Posts/

Objetivo

·7 minutos·
Autor
Isaac Vicente
Apaixonado por Linux, sistemas distribuídos e infraestrutura cloud.

Qual é seu objetivo?

Quero que pense nessa pergunta enquanto lê o resto do texto, acho importante ter essa coisa incomodando no fundo da cabeça.

De fato, essa é uma pergunta difícil de responder, e acredito que poucos conseguem responder essa pergunta assim que leem. O mesmo vale pra mim. Objetivos são coisas que levam, nós, humanos, a realizar coisas, seja o objetivo apenas uma motivação distante ou uma necessidade.

Para mim, no momento da escrita, não consigo responder essa pergunta. Veja, já adianto que o que escrevo aqui ou irei escrever não toca nada no que diz respeito à motivação de coaching ou coisa que o valha. Não. As pessoas precisam definir seus objetivos e trabalhar até o alcançarem. Coachs são pessoas que vendem uma necessidade e a solução pra ela (como qualquer outro vendedor faz).

Sem mais enrolação, acho interessante falar sobre objetivo. Há alguns anos atrás defini alguns objetivos e acredito ter conseguido realizá-los. Meu primeiro grande objetivo foi conseguir passar numa universidade e curso que queria (muito embora na época eu não sabia nenhuma dessas coisas, mas queria entrar numa boa universidade). Tudo começou quando me dei conta de que estava “velho” demais, e que precisava agir na vida, ou seja, tomar um rumo e decidir o que queria fazer depois do ensino médio. Esse momento me pegou de jeito, é realmente um choque, uma virada de chave, de certa forma (sem querer parecer ser muito dramático). Então, logo depois de perceber isso a Covid-19 atingiu o mundo (incluindo eu). Qual foi a solução? Estudar por conta própria, sem ajuda da escola. Naquele tempo já existia cursos online para o enem, mas eu, que sou uma pessoa “mão fechada” para gastar dinheiro, não concordava ter que pagar para conseguir passar no ENEM. Pensava: se a educação deveria ser de graça por que eu, justo agora, preciso pagar por isso? Obs: hoje em dia penso um pouco diferente, gaste seu dinheiro nisso se for necessário, pois poupa tempo e tempo é precioso. Enfim, tinha isso como objetivo, e apenas isso. Passei 2 anos sem trabalhar, passando a maior parte do tempo dentro de casa, focado nesse objetivo. Veja, não foi tão ruim quanto soa: nesse tempo eu de fato “perdi” muitas coisas, como oportunidades de sair mais de casa e de me socializar, mas isso não foi prejudicial, pois conquistei outras coisas, como o gosto pelo estudo e o hábito de leitura. Com olhar nostálgico, acredito que essa foi umas das melhores épocas da minha vida, apesar de um vírus estar devastando toda a Terra.

Durante esse período, esse era meu objetivo: estudar e passar numa faculdade. Por conta disso, para me ajudar no meu exame, tudo que fazia era em torno disso (de certa forma): os livros que eu lia eram livros clássicos, que iriam futuramente me ajudar em minha redação. Não os lia por obrigação, e sim mais por curiosidade na verdade. Eram e são livros que te fazem pensar de maneira interior, sobre você e sobre o mundo, não importa quão antigo e quão diferente eram as épocas retratadas nos livros. Pulando um pouco no tempo, consegui passar na faculdade que queria e numa das melhores faculdades da região: Ciência da Computação, na UFCG.

E agora? Pensava eu depois de ter passado. Meu pŕoximo objetivo então foi decidir me preparar para essa nova jornada: a faculdade. O que eu poderia fazer? Duas coisas me vieram à cabeça:

  1. Preciso melhorar minha base matemática, pois iria cursar um curso de exatas;
  2. Preciso melhorar minhas habilidades (até ali quase não existentes) em programação, pois será necessário.

Com meus novos objetivos, de novo, foquei apenas naquilo, de forma solitária como já estava acostumado, embora motivado e confiante. Uma das coisas que fiz foi pegar um livro de matemática de ensino médio, ler e resolver ele de ponta a ponta. Spoiler: não consegui finalizar todo o livro, pois ele tinha um pouco mais de 1200 páginas (não me lembro ao certo, se estou enganado era mais que isso). Ainda sim consegui uma coisa: lotei certa de 4 cadernos médios de páginas preenchidas de questões resolvidas, com as soluções e os erros cometidos (junto com a versão correta ao lado). Isso me rendeu basicamente metade do livro feito. Alguém pode pensar: “sério? e você gostava?” às duas perguntas digo sim. Sinceramente, era até divertido, eu costumava gostar de me sentir desafiado pela próxima questão por vir, e gostava mais ainda da sensação e ficar diversos minutos pensando na solução, escrevendo e apagando uma solução que teria pensado, para no final ficar confiante de uma resposta definitiva e poder assim corrigir se o que tinha pensado estava correto. Parte das vezes eu acertava, na outras eu errava. Em ambas as situações gostava da sensação: ou tinha conseguido resolver um problema que tinha ficado muito tempo pensando ou aprendia uma nova forma de pensar num problema que não tinha visto. A sensação de errar uma questão significava que eu estava aprendendo e era mais burro do que pensava. Mas isso era legal.

Coisa parecida aconteceu quanto à programação. Geralmente eu pesquiso bastante sobre coisas antes de escolher, o que me faz ser uma pessoa por natureza bastante indeciso. Assim, escolhi fazer o curso gratuito da Havard para pessoas começando em computação. O curso era o CS50x. Até hoje recomendo fortemente esse curso para quem estiver começando e tenham um nível médio no inglês. Ao realizar esse curso vivi coisas parecidas com as questões de matemática. Tinham vários problemas no fim de cada aula. Os problemas, apesar de terem em parte um código preenchido, não eram fáceis. De fato, eram problemas bastante interessantes. Por problemas não quero dizer “ache a maior substring nessa string” ou coisas nesse sentido. Eram problemas com todo um contexto e história por trás, que me deixava engajado e me divertia. Por conta disso, passava horas tentando resolver um certo problema. Nesse tempo a IA como conhecemos não existia, mas a Internet já existia, e pouquíssimas vezes olhei algumas respostas online. Na maior parte das vezes, no entanto, eu sofria e sofria para resolver aquele problema. Por exemplo, na aula de SQL, um dos problemas era resolver um caso criminal numa cidade fictícia que existia apenas em alguns arquivos (com pistas e depoimentos) e num banco de dados SQLite. Sim, é isso mesmo. Foi tão divertido me sentir um investigador enquanto resolvia aquilo (demorei uns 2 dias pensando para conseguir ter a resposta correta).

Isso tudo aconteceu, acredito eu, por eu ter um objetivo. Tudo que não se relacionava com essas coisas para mim eram invisíveis. De fato, não me lembro de muitas coisas fora as que já mencionei. Um objetivo claro e definido me levaram a lugares que me orgulho de ter conhecido, seja a ótima universidade do qual faço parte, seja os ótimos cursos que fiz e que tenho saudades.

Esse texto é mais um desabafo do que qualquer outra coisa. Hoje em dia não tenho objetivos como os de antes. Não vivi essa diversão que descrevi. Deixei de ler os livros que tanto gostava. Será que foram a faculdade e as responsabilidades? Acho que não.

De qualquer forma, é preciso pensar num objetivo e seguí-lo como uma religião de fanáticos. É preciso abdicar de algumas coisas para conquistar outras. É preciso se sentir burro ou inconfortável para então aprender e se sentir bem. É preciso se conhecer e aprender com nós mesmos e as pessoas que amamos ao nosso redor. É preciso pensar em um objetivo depois de outro. De outra forma, o que guiará as decisões e sacrifícios da vida que virá pela frente?

Não quero deixar ninguém triste, nem mesmo eu mesmo. Precisamos algumas vezes sermos incomodados e instigados, cutucados de certa forma.

Qual é o seu objetivo?